29 abril 2016

Nunca me acostumei com o adeus



"Eu sei que preciso ir embora, mas não tem como ficar mais um pouco? Quero continuar aqui até chegar o outro dia..." Em reuniões de amigos, eu prefiro não perder nenhum momento, por isso que é necessário ser o último a se despedir. Mas isso também significa ser o último a dar adeus àquelas lembranças. Significa ver todo mundo indo embora. Significa querer desesperadamente que aquele presente nunca se torne passado. Mesmo que eu não queira ser a última, o destino acabava me deixando para trás, e eu sempre tinha que esperar até chegar a minha hora de me despedir também. Desde criança sofro com isso, me acostumo rapidamente com as situações mas me desacostumo o mais lentamente possível. Deu pra entender? Eu também não entendo. Eu sentia saudade até da pessoa que eu sempre via no supermercado, da recepcionista do hotel, e de inúmeras pessoas que nem o nome eu sei.

A vida tenta, desde sempre, me ensinar a lidar com despedidas, mas já era de se esperar que eu não aprendesse direito. Nunca fui lá muito inteligente, até demorei pra entender o que se passava aqui dentro. Agora eu sei que eu sou mais apegada aos momentos do que a maioria das pessoas. Sou eu quem normalmente começa aquela conversa com "lembra daquele dia?". Sou eu quem sempre fala do passado e que também adora mostrar fotos antigas. E, desde que me conheço por gente, eu já entrava em um estado de transe, em que a única coisa em que eu conseguia pensar e sentir era que aquele momento era o mais maravilhoso do universo, e que aquilo não podia acabar.

Mas acabava. Mais cedo do que eu imaginava. E aí eu tinha que ir pra casa. E aí eu tinha que fazer tudo que pudesse para guardar todos os detalhes na minha memória, todas aquelas sensações, os sentimentos, as emoções das pessoas, as falas, os pequenos detalhes de tudo. Eu tentava me agarrar às cartas e à escrita, mas ainda assim, havia tantos pedaços de memórias que acabavam escapando que era necessário me agarrar à tudo que pudesse. Fotos, vídeos, mensagens, cartas - de repente, me vi entupida de meios que ativassem minha memória. Isso retarda o processo de esquecimento, mas parece que nunca vai conseguir alimentar suficientemente todos esses meus sentimentos.


Por isso eu continuo. Até escrevo com mais frequência, não quero perder nada, tenho muito medo. Sempre fui muito medrosa, tinha medo de ter medo. E eu não conseguia confiar nas coisas boas, na verdade, até hoje eu duvido. Quase duas décadas de idade e ainda assim eu tenho medo de uma garotinha de dois anos. Não é legal ser tão medrosa assim. Não é nada legal mas, isso me faz querer captar cada detalhe de cada momento, quero conseguir sentir e captar todas as demonstrações de amor por mim, não quero deixar de lado nem um "oi, tudo bom?". Por que, se pararmos para pensar, isso não é incrível?

Inúmeras e inúmeras vezes fui para casa repassando tudo o que vivi até aquele momento. Inúmeras foram as vezes também em que eu estava exausta, mas me recusava a fechar os olhos, era aquele medo de novo. Medo de perder algo, medo de não ter sido real, medo de me perder das pessoas e de mim mesma. Às vezes, não consigo dormir até registrar isso de forma escrita, assim, eu poderia consultar todas aquelas memórias sempre que quisesse. Eu não queria virar a página, não queria que o dia terminasse e que o "hoje" se tornasse o "ontem", e que depois, se tornaria "aquele dia" e que depois virasse um dia em que eu já nem sei mais qual era.

E é por isso que eu estou escrevendo esse post agora, eu não quero perder esse sentimento. Até os sentimentos mais dolorosos eu tenho dificuldade de me despedir. Quem se apegou ao sofrimento fui eu, e não ele à mim. Eu não queria esquecer de como era sentir algo, principalmente de como era se sentir engolido por sensações ruins. Eu guardei dentro de mim um lugar em que me dizia que não posso me esquecer dos tempos ruins, para que eu consiga sentir tudo de horrível de novo e assim, conseguir evitar fazer as pessoas se sentirem do mesmo jeito que me senti.


Mas eu me esqueço, eu me perco, e eu fico presa. Não há como evitar. Eu já estou tentando viver mais e registar menos. Eu sei que o que eu me lembrar já é o bastante, e isso não quer dizer que eu me esqueci completamente das outras lembranças ou que eu as abandonei. Mas eu também sei que ainda vou chorar muito de saudade até que eu consiga entender completamente isso. E eu sei que tá tudo bem, mesmo me sentindo sozinha enquanto todo mundo segue em frente, muitos acabam voltando, em um sentimento de nostalgia. É como receber seus amigos que voltaram à sua casa, depois de estarem fora por muitos anos. Ao conversarmos, eu vou saber que vai ser a minha hora de partir. E eu sei que um dia eu terei que virar uma página, subir um degrau, e mudar de casa, onde todas as minhas caixas de memórias não vão caber. E aí, eu espero ter me acostumado com o adeus.

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